domingo, 22 de maio de 2016

Dançando, Comendo e Bebendo

                                                (Lepê Correia)

Ninguém, como nós
Apimenta a vida e divide a lua ao meio
Mesmo estando inteira – no compasso.
Tem lá, tem cá poeira brilhante
Nos pés das estrelas
Estrelas que dançam jongo
Sambantes na roda de Nkise, Vodu e Orisá...
Já que o burububa tocava nas mãos de Benguela
E aqui virou berimbau...
Ninguém como nós malagueta a jinga,
Tem um mês de folia
Faz do prato-do-dia a prosa
Cozida em fogão de lenha, e assa seu manuê
Na palha feito muqueka
Eu quero é beber cachaça, amuquecado no mato.
Canto lôa pra Kalunga
Foi ele quem nos criou.
Por isso tá tudo vivo, por isso tá tudo aí:
Kongo, Benguela, Kasanje -  povo Banto e Tupy
Anda prA lá Kituxe, chega pra cá Zumbi

Ninguém como nós tem herói
Que nem morreu, nem encantou-se
Mas que nasce todo dia
Como os kilombos da Serra...
Eita povo renitente
Um tambor dentro do peito
Luanda dentro dos olhos
E Danda Lunda tranqüila
Destilando a tradição...
E os “sábios” continuam
Chamando kilombos: favelas
E Mukumbi continua, tomando conta da gente
Rangoro aguando as matas
Pai Velho dando muxoxo
Entre o cachimbo e  o rosário
Há mais de 500 anos...
E Nzambi na paz de Nzambi
Olha tudo... e nós aqui !

                                                   Janeiro, 2007