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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Cantando Kilombo

                                  






 Lepê Correia    

Eu sou Kilombo / Negro afoito, sou Brasil
Meu nome é festa / Muito esperto, sou demais
Não me confunda / Sou ciência milenar
E foi lutando / Que eu conquistei meu lugar

Sou de um povo / Que respeita a Natureza
Sou matemática / Nobreza medicinal
Estou cantando / O que não tem na escola
Tome tino, baixe a bola / Pra sua Alteza Real
De Uganda, Kush e Mali / E minha gente não cale
Nem depois do carnaval

Pois Kilombo é nossa História / Uma estrela em nossa testa
Negro preserva a memória / Enquanto dança na festa
Ìfaradà gbogbo ara / Dudu dáradára ofé
Òdodó ati pùpá / Lónijó afosé
Povo de Itamaracá.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Literatura e Negritude em PE

                                                                                                                                                                                                                              
                                                             Lepê Correia.

                Embora a presença do negro na literatura brasileira venha dos primeiros séculos da colonização quando o Brasil ainda era uma terra sem identidade de nação definida, o “negro inteiro na literatura começa a partir de 1830” (CAMARGO, 1989, p. 34), 58 anos antes da abolição, quando o negro, Antônio Gonçalves Teixeira e Souza, lutando contra a mudez e silêncio aos quais estava confinado seu povo, escreve O Filho do Pescador, só publicado em 1843, no Rio de Janeiro. Primeiro romance brasileiro, feito por um filho do país. Neste mesmo ano, o professor negro, Antônio Pedro de Figueiredo (1822), nascido em Igaraçu e educado pelos padres Carmelitas, “traduziu e publicou o Curso de História da Filosofia, do Francês Victor Cousin, com a intenção de divulgar o pensamento socialista no Brasil”(BENJAMIM, 2011, P. 74). Ensinou no Liceu de Recife(1844) e no Ginásio Pernambucano(1849), além de fundar e editar a revista O Progresso(1846), que divulgava idéias e notícias européias. Isso fez com que seus desafetos o apelidassem de “Cousin Fusco”. Abdalah El-Kratiff, (era seu pseudônimo. Um costume dos jornalistas de sua época, principalmente os polêmicos). Escreveu para diversos jornais do Recife sobre Critica Literária e participou de vários debates polêmicos sobre socialismo com professores da Faculdade de Direito do Recife. Consagrado como intelectual e critico da organização patriarcal, morreu no Recife, em 1859, aos 37 anos de idade.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

ADINKRA:



        UM SISTEMA  DE ESCRITA  FILOSÓFICO, HISTÓRICO E CULTURAL AFRICANO

              O continente africano é realmente uma caixa de surpresas, principalmente para nós os brasileiros que, como colonizados pelos europeus, temos um imaginário social povoado de distorções em relação à África. Por exemplo, ela é um país miserável, faminto e sem história, onde todos falam a mesma língua, o africano. É lúdica: só tem danças, cantos, feitiços, animais, florestas e desertos.
           Bem senhoras e senhores, meninas e meninos, a África vai além disso! “A distorção da história africana está entre os maiores responsáveis pela perpetuação da imagem dos “negros” como tribais, primitivos e atrasados” (NASCIMENTO, 2008, p. 31), vivendo ainda em grande parte, da oralidade.

 

                O que uma grande maioria não sabe é que a África é um continente cheio de    saberes e descobertas, revelado hoje como “berço único da humanidade arcaica e moderna (com) [...] redes sociais complexas [...] ao longo de seus quase três milhões de anos de existência” (MOORE-in LARKIN, 2008, p. 11). Seus povos, até hoje, apesar da globalização, preservam sabedorias ancestrais contidas em coisas tão simples, que jamais imaginaríamos estarem ali guardadas, estratégias de sobrevivência e continuidade filosófica de valores civilizatórios. Sim, isso mesmo: significados e intenções oriundos de civilizações milenares. 
               Uma dessas jóias ancestrais é o conjunto ideográfico chamado Adinkra, concebido pelos Akan, povo da antiga Costa do Ouro, a atual Gana, que espalhou-se pela Costa do Marfim, Togo e outros países da África Ocidental. Em Twi, língua dos Akan, Adinkra “significa literalmente ‘despedida’, ‘gesto de adeus’”(LOPES in LARKIN, 2009). Cada símbolo, em um número maior que oitenta, carrega um conteúdo não apenas estético, mas incorpora, preserva e transmite “aspectos da história, filosofia, valores e normas socioculturais desses povos de Gana”(Nascimento, 2009), que foi incorporado também pelo povo Ashanti. No Adinkra, o princípio Sankofa tem o significado de “voltar e apanhar de novo aquilo que ficou pra trás”, ou seja, “voltar às suas raízes e construir sobre elas o desenvolvimento, o progresso e a prosperidade de sua comunidade em todos os aspectos da realização humana” (Glover apud Larkin, 2008).


                                                                
           
               Para esses povos os valores comunitários se sobrepõem ao individualismo, visto que a comunidade é vivenciada como o espírito, a luz-guia do grupo social, local onde todos devem caminhar e mergulhar juntos, profundamente e fazer o círculo de volta. “Qualquer relacionamento é uma dádiva do espírito, requer nossa gratidão e que estejamos abertos a ouvir a razão pela qual fomos unidos”(SOMÉ, 2003, p.8) Esses ensinamentos são tácitamente exemplos da descentralização como prática política africana, em contraste com o centralismo absoluto dos imperialismos atuais, filhos do Império Romano.
  Os Adinkra, formam um tipo de escritura pictográfica impressa e estampada nos tecidos e também registrados pelos Akan, nas esculturas feitas em objetos como o Gwa, um tipo de assento, (o banco do rei e símbolo de soberania), o bastão do lingüista (símbolo das relações do Estado com os povos) e os djayobwe(contrapeso para medir quantidades de ouro e sal), figuras esculpidas em ferro e em bronze. Muitas vezes a simbologia é relacionada a provérbios representados por animais. Por exemplo, dois crocodilos dividindo um estômago (um ligado ao outro formando um X) aprendem que ao brigar entre si, ambos ficam com fome. No Adinkra representa a necessidade de unidade, principalmente quando os destinos se confundem que é o Funtummireku Denkyemmireku , – unidade na diversidade e advertência contra brigas internas quando existe um destino em comum.
    Bem, desta forma podemos começar a compreender que antes da escrita árabe ser introduzida na África através das invasões mulçumanas, vários sistemas de escrita já existiam. Então, podemos deduzir que os africanos foram os primeiros povos a criar essa técnica, o que vem a desmentir a idéia de que os povos africanos por serem ágrafos, ou seja, sem escrita, tiveram como conseqüência a ausência de história, pois, viviam apenas da oralidade.
     Estas e outras páginas da herança africana, veremos com mais profundidade a partir do nosso quarto módulo, pois entendemos  a história a filosofia e a cultura africana como um pré-requisito para uma melhor compreensão e discussão sobre o saber em relação a uma dimensão da cultura e da experiência social brasileira, que merece muito mais atenção de todos nós. Pra começo de conversa, vivenciemos um pouco da Sabedoria dos AKan através dos Adinkra, a partir dos símbolos que lhes esperam em cada porta de entrada. Que todas e todos lembrem-se: Se wo were fi na wo sankofa a yenkyi – Nunca é tarde para voltar e apanhar o que ficou atrás. Boa viagem!

REFERÊNCIAS.

NASCIMENTO, Elisa Larkin (Org) A Matriz Africana no MundoSão Paulo: Selo Negro, 2008.
NASCIMENTO, Elisa Larkin & GÁ, Luis Carlos (Org) Adinkra: Sabedoria em Símbolos Africanos, Rio de Janiro: Pallas, 2009
SOMÉ, Sobonfu, O Espirito da Intimidade: ensinamentos ancestrais africanos sobre relacionamentos, São Paulo: Odysseus Editora, 2003.